Entre gráficos e narrativas: quando o jornalismo flerta com a desinformação

 A recente divulgação, pela GloboNews, de um PowerPoint que associa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores a um suposto escândalo financeiro envolvendo o Banco Master não é apenas um episódio isolado de cobertura controversa. Trata-se de um sintoma preocupante de um ecossistema informacional tensionado, no qual fronteiras entre investigação jornalística, inferência e construção narrativa tornam-se perigosamente difusas.
 

A estética e a lógica do material apresentado evocam um precedente conhecido: o emblemático PowerPoint da Operação Lava Jato. À época, a peça foi amplamente criticada por sua fragilidade probatória e pelo uso de recursos visuais que sugeriam conexões sem lastro empírico robusto. Ao reeditar esse formato, a GloboNews não apenas resgata uma gramática já contestada, mas reativa um dispositivo retórico que opera mais pela indução interpretativa do que pela demonstração factual.

O problema central não reside apenas na forma, mas no enquadramento (framing) adotado. Ao privilegiar determinadas associações, neste caso, entre Lula, o PT e o empresário Daniel Vorcaro, e omitir ou secundarizar vínculos politicamente relevantes, como aqueles que envolvem figuras como Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central à época da aprovação da compra do Banco Master, a narrativa apresentada incorre em assimetria informacional. Essa seletividade não é neutra, ela orienta a percepção pública e estrutura o debate político a partir de recortes parciais.

Sob a lente da desinformação, esse tipo de prática ganha contornos ainda mais críticos. Não se trata necessariamente de afirmar a existência de uma ação deliberada e centralizada, mas de reconhecer que conteúdos midiáticos com alto poder de difusão podem funcionar como nós estratégicos em redes de circulação de sentidos. Quando tais conteúdos apresentam lacunas de apuração, ambiguidades ou inferências frágeis, tornam-se suscetíveis à reapropriação, amplificação e distorção em ambientes digitais, especialmente em contextos de polarização acentuada.

O timing da veiculação agrava esse quadro. Em um cenário pré-eleitoral, historicamente permeado por campanhas de desinformação, a introdução de narrativas pouco rigorosas por veículos de grande alcance contribui para a erosão da confiança pública. A experiência recente brasileira, marcada por episódios de fake news, uso político de deepfakes e pela própria tentativa de ruptura institucional em 8 de janeiro, evidencia como a desinformação não é um fenômeno periférico, mas estruturante de crises democráticas contemporâneas.

Nesse contexto, o jornalismo profissional deveria atuar como instância de contenção, e não de propagação de ruídos informacionais. Isso implica compromisso rigoroso com critérios clássicos da prática jornalística como verificação, contextualização, pluralidade de fontes e transparência metodológica. A substituição desses parâmetros por narrativas sugestivas, ainda que visualmente sofisticadas, compromete não apenas a credibilidade do veículo, mas o próprio papel da imprensa como mediadora qualificada do debate público.

Mais do que um deslize editorial, episódios como esse tensionam a responsabilidade sistêmica dos meios de comunicação em democracias fragilizadas. Ao operar com enquadramentos seletivos e evidências incompletas, a imprensa corre o risco de se tornar vetor - ainda que não intencional - de dinâmicas que alimentam a desinformação e aprofundam divisões políticas.

Em tempos de instabilidade democrática, a verdade não é apenas um valor normativo do jornalismo; é um ativo institucional. Rigor jornalístico não é detalhe. É condição para a democracia.

Benildes Rodrigues

Jornalista e mestranda 

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