domingo, 20 de abril de 2014

Doleiro ligado a Vargas é tiro no pé do PSDB, diz Amaury Ribeiro Jr



Foto: Brasil 247

Alberto Youssef, ligado ao deputado petista André Vargas, já teria operado para Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor do BB e ex-caixa de campanha do ex-ministro José Serra
Fonte: iG São Paulo

A empenho de figuras do PSDB para a criação da CPI da Petrobras pode se transformar em um tiro no pé dos próprios tucanos. A observação é do jornalista Amaury Ribeiro Jr, autor de “A Privataria Tucana”, livro que denuncia irregularidades na privatização das teles e um suposto esquema de evasão de divisas para paraísos fiscais durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

O livro traz uma revelação que parece ter sido esquecida pelos tucanos ávidos pela criação da CPI da Petrobras: o doleiro Alberto Youssef, ligado agora ao deputado André Vargas (PT-PR), já teria operado para Ricardo Sérgio de Oliveira, o ex-diretor internacional do Banco do Brasil e ex-caixa de campanha do ex-ministro José Serra, duas vezes candidato derrotado à Presidência.

“Quem montou o esquema de propinas na Petrobras foi o Youssef, não no governo do PT, mas no do PSDB”, afirma o jornalista. “Ele havia feito a mesma coisa no Caso Banestado”, lembra Amaury. No livro, ele relata que entre 1996 e 1997 o doleiro enviou para Nova York, por meio de uma off-shore, a June International Corporation, US$ 56 milhões descobertos em uma subconta bancária hospedada na Beacon Hill Service Corporation, uma espécie de conta-ônibus no Chase Manhattan (hoje JP Morgan Chase). O dinheiro tinha como destino final uma agência das Ilhas Virgens Britânicas.

O esquema Banestado alimentou a remessa de US$ 30 bilhões que escoaram através de movimentações pelas CC-5 (Carta Circular nº 5, do Banco Central), criadas para permitir saques e depósitos de estrangeiros em trânsito cuja finalidade foi deturpada. Uma das pontas da imensa rede era operada por Youssef, que utilizava laranjas no Paraguai e no Uruguai para despistar o rastreamento bancário.

A conta tinha o sugestivo nome de Tucano e, segundo Amaury, era integralmente administrada pelo advogado americano David Spencer, procurador de Ricardo Sérgio de Oliveira. “Está se repetindo agora o mesmo que ocorreu no mensalão: o PT foi procurar um personagem que já operou para o PSDB”, diz Amaury. Ou seja: o Youssef, segundo o jornalista, é o Marcos Valério da Petrobras, uma segunda herança tucana ao PT na seara de malfeitos.

Pela voracidade com que os tucanos têm investido na criação da CPI da Petrobras, Amaury acha que as informações mais apimentadas de um suposto relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da Justiça, ainda não vieram à tona. Pelos indícios do apurou, ele aposta, no entanto, que há matéria-prima para desgaste nos dois maiores partidos.

“Estou ansioso para ser chamado à CPI”, afirma Amaury, que diz ter guardado alguns documentos não revelados em “A Privataria Tucana”. O livro, já vendeu mais de 150 mil exemplares, traz também uma revelação que está sendo robustecida pelas novas investigações da Polícia Federal: a participação de doleiros em grandes esquemas de financiamento de tráfico de drogas no atacado.

No livro de Amaury, Youssef é apontado como um profissional eclético. O doleiro atuava, ao mesmo tempo, para tucanos de penas reais e traficantes barra pesada, como Fernandinho Beira Mar ou o bicheiro João Arcanjo Ribeiro, conhecido como comendador. Em Foz do Iguaçú, no rastro da Operação Lava Jato, a Polícia Federal descobriu doleiros financiando operações de alta envergadura no tráfico internacional.

O deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) tentou por duas vezes criar a CPI da Privataria. Delegado da Polícia Federal, o deputado investigou o caso e conhece o doleiro ao ponto de prever que ele fará, mais uma vez, acordo de delação privada para escapar de uma pesada sentença. Youssef estaria “no ponto” para ser ouvido numa CPI.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Petrobras: Ex-diretor reafirma acerto na compra de Pasadena

cervero-16-04-14
O ex-diretor da área internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, em contraposição aos argumentos de setores da oposição, reafirmou nesta terça-feira (16), que a aquisição da refinaria de Pasadena no Texas (EUA) foi uma operação “rentável” e “um bom negócio” para o  momento em que a transação foi feita.

“Em 2005, comprar uma refinaria nos EUA e adaptá-la para processar petróleo brasileiro pesado, além de ser uma ação alinhada ao planejamento estratégico da Petrobras, era uma boa oportunidade de negócio”, observou Cerveró.

O ex-diretor da Petrobras esclareceu que a decisão pela compra da refinaria não foi individual, e, sim, da direção da estatal, em consonância com o Conselho de Administração da empresa. Cerveró disse ainda a operação foi avalizada pelo Citigroup que apresentou fairness opinion (opinião imparcial sobre avalição de negócios e transações financeiras) que indicou adequação da negociação ao parâmetro internacional.

Quanto ao custo da refinaria, Nestor Cerveró explicou que a Petrobras pagou à Astra pelos primeiros 50% da refinaria de Pasadena e, por 50% das ações da Trading Company, o montante de US$ 359,2 milhões. Essa proposta, segundo ele, foi apoiada pelos pareceres das áreas jurídica e tributária, e pela fairness opinion do Citigroup.

Put Option - No detalhamento sobre o processo de aquisição de outros 50% restantes da refinaria de Pasadena, o ex-dirigente da Petrobras disse que a ampliação da refinaria foi o ponto divergente entre a estatal e a trading. Ele explicou que a Astra não concordava com o projeto de ampliação e, segundo ele, a partir daí, começou o processo de dissolução da parceria.

Nesse caso, explicou Cerveró, a cláusula de Put Option foi aplicada. Essa cláusula estabelece as condições de saída da sociedade de um dos parceiros, em caso de divergência. De acordo com Cerveró, esse é um procedimento comum em sociedades 50%/50%, onde um impasse pode vir a paralisar a empresa. Apesar da mudança no cenário nacional, com a descoberta do pré-sal, ter levado a Petrobras a focar no desenvolvimento dessas reservas, um acordo extrajudicial obrigou a empresa a adquirir os outros 50% restantes.

Questionado sobre a ausência dessa cláusula no resumo executivo que embasou a decisão do Conselho Administrativo da Petrobras para autorizar a compra, em 2006, Nestor Cerveró disse que antes do acordo judicial havia interesse da companhia na aquisição dos 50% restantes. Ele acrescentou que essa era uma cláusula de proteção e não colocava em risco a Petrobras.

Em relação à cláusula Marlim ele disse que nunca foi utilizada porque as obras de ampliação não foram implantadas. Para ele, as duas cláusulas não são “lesivas” à companhia.

De acordo com o detalhamento apresentado por Cerveró, a empresa brasileira desembolsou nessa operação o equivalente a US$ 1,233 milhão sendo, US$ 555 milhões pelo custo da refinaria; US$ 343 pela trading e estoques, e US$ 335 milhões com outros custos.

O deputado Edson Santos (PT-RJ) salientou que a presença do ex-diretor internacional da Petrobras na audiência pública partiu do próprio Nestor Cerveró. Com essa iniciativa, explicou o petista, Cerveró protegeu e promoveu o nome da empresa no exterior. Edson Santos disse ainda que o tema Pasadena transformou-se num viés politico da oposição. Diferentemente dos governos tucanos que, segundo o parlamentar, tentou em cinco anos preparar a empresa para ser vendida, no atual governo a Petrobras “tem valor e importância para o desenvolvimento do País”.

Edson Santos observou que documentos vazados pelo WikiLeaks mostram conversa entre Serra e a Companhia de Petróleo Chevron. O diálogo revela que o então candidato à presidência da República pelo PSDB, assumiu o compromisso de mudar o modelo de exploração do petróleo, mudando o modelo de partilha para concessão. De acordo com Santos, o atual candidato tucano, Aécio Neves, ratificou esse compromisso.

“Existe uma insatisfação com o fato de que o lucro do petróleo fique no Brasil. Esse é o pano de fundo dessa questão. Quem quer mudar o modelo de exploração está atendendo ao interesse das grandes empresas de petróleo do mundo” afirmou Edson Santos.

O deputado Fernando Ferro (PT-PE) partilhou da opinião e acrescentou que na era FHC a presença do Estado brasileiro na Petrobras foi reduzida a 36%. Isso, na avaliação do petista, caracteriza um plano de privatização.

Sobre Pasadena, Ferro disse que a transação não foi “mau negócio”. Segundo ele, foi uma operação “justificada”. De acordo com Fernando Ferro, qualquer avaliação sobre essa operação, requer uma análise profunda do cenário dos negócios do petróleo em 2006 para os dias atuais. “Não dá para transpor negócio que ocorreu lá atrás para hoje”, analisou Fernando Ferro.

Benildes Rodrigues

terça-feira, 15 de abril de 2014

Graça Foster detalha compra de Pasadena e diz que Petrobras é mais que um investimento

GRACA FOSTER

A presidente da Petrobras, Graça Foster defendeu em audiência no Senado nesta terça-feira (15) a posição adotada pelo Conselho de Administração da Petrobras que aprovou, em 2006, a   compra de 50% da refinaria de Pasadena no Texas, Estados Unidos. Ela frisou que as demandas do mercado petrolífero brasileiro, à época, exigiram da estatal a adoção da medida. Ela explicou que a Petrobras possui mais de mil projetos de investimentos e a história da estatal não pode se reduzir à negociação de Pasadena.

Graça Foster disse que à luz de todas as críticas à negociação feita pela estatal, o empreendimento apresentou resultado positivo no primeiro trimestre de 2014. Ela disse ainda que o teste de impairment (teste de recuperabilidade) reconheceu as perdas de Pasadena (U$ 530 milhões) e, segundo ela, a partir daí, Pasadena apresentou um ativo de qualidade para aquilo que hoje se propõe.

“Temos uma refinaria que opera com segurança. Temos uma refinaria que, do mês de janeiro a março deste ano deu resultado positivo. Porque, além da melhor perfomance operacional, temos o petróleo não convencional, leve, que são de xistos, que chegam à nossa refinaria  com desconto menor. Este petróleo, nesta refinaria, traduz o resultado positivo para essa operação”, avaliou Graça Foster.

A presidente da Petrobras fez questão de esclarecer que a orientação do Conselho Administrativo da Petrobras era a de expandir o refino e a comercialização do petróleo no Brasil e no exterior. Ela observou que o objetivo da compra de Pasadena era capturar grande margem de óleo pesado nos EUA.

A compra dos primeiros 50% de Pasadena, em 2006, custou aos cofres da Petrobras cerca de US$ 360 milhões. No entanto, ela fez questão de esclarecer que, em 2012, um acordo extrajudicial entre a Astra e a Petrobras, obrigou a estatal brasileira a adquirir outros 50% restantes da trading.

Segundo Graça Foster, essa operação levou a companhia a desembolsar US$ 554 milhões com a compra de 100% da PRSI- refinaria; US$ 341 milhões gastos com PRST- Trading e US$ 354 milhões referentes a outros gastos com a aquisição. O valor total da transação girou em torno de US$ 1,25 milhão.

“O negócio originalmente concebido transformou-se em um empreendimento de baixo retorno sobre o capital investido. Entretanto, nos últimos meses, o lucro líquido da refinaria tem sido positivo”, reafirmou.

A presidente da Petrobras explicou que o que levou a essa ação judicial foi a ausência de informações sobre as cláusulas Put Option e Marlim que faziam referência à intenção ou obrigatoriedade de compra de 50% remanescentes. De acordo com Graça Foster, o resumo executivo que serviu de base para a compra da refinaria, não apresentou essas duas cláusulas contratuais.

Para o líder da bancada do PT, deputado Vicentinho (PT-SP) a exposição da presidente da Petrobras “foi muito sincera e ninguém ousou dizer que se tratou de corrupção, a compra da refinaria de Pasadena”. Para ele, as explicações foram consistentes e vão contribuir para que a sociedade debata o assunto.

Para o deputado José Guimarães (PT-CE) o eixo central que a presidenta colocou é que a Petrobras “é uma das empresas que tem melhor saúde financeira do mundo”. Em relação à compra de Pasadena, o petista observou que a compra da refinaria estava prevista no Plano de Negócio da Estatal em 1999. “Esse negócio foi gestado em 1999, no governo do PSDB”. De acordo com Guimarães, para as condições que o País vivia naquele período, a compra da refinaria foi um bom negócio.

 “Dentro das condições, não foi um mau negócio. Pasadena já deu resultado surpreendente. Portanto, precisamos descontruir esse discurso maldoso que só tem um objetivo: enfraquecer a Petrobras para, quem sabe, no futuro, aqueles que torcem contra a empresa venham propor a sua privatização como fizeram no passado”, lembrou Guimarães.

O deputado Fernando Ferro (PT-PE), que também acompanhou a audiência pública, disse que a afirmação feita pela presidente da Petrobras foi feita à luz do cenário mundial atual. De acordo com ele, não dá pra fazer uma avaliação de um negócio feito lá atrás.  “No contexto em que a transação foi realizada não foi um mau negócio. Pelo quadro que chegou a economia hoje seria muita adivinhação a pessoa prever o desdobramento da economia e da indústria do petróleo”. De acordo com Fernando Ferro, não dá pra comparar negócios em conjunturas e tempos diferenciados.
Benildes Rodrigues
Foto: gustavo Bezerra

domingo, 13 de abril de 2014

LULA: Prisão de Zé Dirceu é abuso de poder e da lei



Por Cristiane Agostine | Valor
SÃO PAULO  -  O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, nesta terça-feira, 8, que a prisão em regime fechado do ex-ministro José Dirceu (PT) é um “abuso muito grave do exercício do poder e da lei”. Lula afirmou que alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se comportaram de forma equivocada durante o julgamento do mensalão. O ex-presidente disse, ainda, que tem “gente falando demais” na Suprema Corte.

Ao conceder entrevista a um grupo de blogueiros, transmitida ao vivo pela internet, Lula criticou o julgamento do mensalão pelo STF. Ao falar sobre a prisão de Dirceu, ex-ministro da Casa Civil no governo Lula, o ex-presidente reclamou do fato de o petista estar em regime fechado, apesar de ter sido condenado a dez anos e dez meses em regime semiaberto. “O que acontece com Dirceu é abuso muito grave de exercício do poder e da lei. Deveria estar em prisão domiciliar”, disse.

Lula disse que a imprensa teve “papel de condenação explícita” no julgamento do mensalão. “Nunca vi nada igual. O massacre era apoteótico.” O ex-presidente reclamou do tratamento desigual dos meios de comunicação em relação ao julgamento do chamado mensalão tucano. “Não vi agora no caso de Minas Gerais. São dois pesos e duas medidas. Os mesmos que defendiam a forca para José Dirceu estão defendendo julgamento tranquilo e civilizado para os outros”, afirmou.

Joaquim Barbosa

O ex-presidente afirmou que não se arrependeu de ter indicado o atual presidente do STF, Joaquim Barbosa, para compor a Corte. “Eu queria que a gente tivesse um advogado negro na Suprema Corte. Por isso ele foi indicado. Não indiquei ele por causa do processo”, disse.

Lula afirmou que o comportamento de Barbosa na condução do julgamento do mensalão é de “inteira responsabilidade do ministro”. No entanto, disse que, no caso do mensalão, “teve gente que se comportou equivocadamente”. “Alguns mentiram descaradamente. Fiquei desconjurado com muitas coisas. Felizmente caiu o crime de quadrilha, lavagem de dinheiro do João Paulo [Cunha]. Precisa provar alguma coisa”, disse.

Ao analisar a atuação do STF, Lula afirmou que “tem muita gente falando demais na Suprema Corte”.

O ex-presidente criticou também a atuação de seu partido, por não ter feito o debate político adequado. “Teve erro do partido e da bancada, que devia ter feito a luta por sete anos. Nós ficamos pensando juridicamente numa ação pensada politicamente”, disse.


Fonte: Valor Econômico

segunda-feira, 7 de abril de 2014

ARTIGO: OS DIREITOS DE DIRCEU E NOSSO CARÁTER

Por Paulo Moreira Leite

Numa injustiça clamorosa que vai além de qualquer opinião sobre as ideias de José Dirceu, seus direitos como prisioneiro não são respeitados


Há momentos em que a vida política deixa de ser um conflito de ideias e projetos para se transformar numa prova de caráter.

Isso é o que acontece com a perseguição a José Dirceu na prisão.

A defesa dos direitos de Dirceu é, hoje, uma linha que define o limite da nossa decência, ajuda a mostrar aonde se encontra a democracia e o abuso, a tolerância diante do ataque aos direitos elementares de uma pessoa.

Ninguém  precisa estar convencido de que Dirceu é inocente sobre as denuncias da AP 470. Nem precisa concordar com qualquer uma de suas ideias políticas para reconhecer que ele enfrenta uma situação  inaceitável.

As questões de caráter envolvem nossos princípios e nossa formação. Definem a  capacidade de homens e mulheres para reagir diante de uma injustiça de acordo com princípios e valores aprendidos em casa, na escola, ao longo da vida,  como explica  Hanna Arendt  em Origens do Totalitarismo. São essas pessoas que, muitas vezes, ajudam a democracia a enfrentar as tentações de uma ditadura.

Um desses homens, e nós vamos saber seu nome dentro de alguns parágrafos, “não era herói e certamente não era um mártir. Era apenas aquele tipo de cidadão com interesse normal pelos negócios públicos que, na hora do perigo ( mas não um minuto antes) se ergue para defender o país da mesma forma como cumpre seus deveres diários, sem discutir.”

A mais recente iniciativa contra os direitos de Dirceu criou um situação nova.

O Ministério Público pede uma investigação telefônica-monstro envolvendo todas as ligações de celular – de 6 operadoras — entre a região do presídio da Papuda, em Brasília, onde ele se encontra prisioneiro desde 16 de novembro, e uma região em torno de Salvador, na Bahia. São milhares, quem sabe milhões de ligações que devem ser mapeadas, uma a uma, e transcritas – em formato de texto – para exame do ministério público em Brasília.

Você sabe qual é o motivo alegado dessa investigação: procurar rastros de uma conversa de celular entre Dirceu e um secretário do governo de Jaques Wagner. Detalhe: supõe-se que o telefonema, caso tenha sido feito, teria ocorrido em 6 de janeiro. Pede-se uma investigação de todas as conversas por um período de 16 dias.

Você sabe qual será seu efeito prático: manter a pressão sobre Dirceu e impedir que ele possa deixar o presídio para trabalhar durante o dia – direito que tem todas as condições legais de cumprir. Não só obteve uma oferta de emprego, como tem parecer Psicossocial favorável e também do Ministério Púbico.

Você pode “achar” – assim como “achamos” tantas coisas a respeito de tantas pessoas, não é mesmo? – que ele cometeu, mesmo, essa falta disciplinar, de natureza grave.

O fato é que desde 6 de janeiro procura-se uma prova desse diálogo  e nada. O secretário de Estado deu uma  entrevista a Folha de S. Paulo, dizendo que havia conversado com Dirceu. Mais tarde, ele se corrigiu e  desmentiu o diálogo. Também confirmou o desmentido  em depoimento oficial. Dirceu sempre negou ter mantido qualquer conversa nestas ocndições.

A conta telefônica do celular do Secretário de Estado não registra nenhuma ligação que, em tese, poderia confirmar a conversa. Uma investigação da policia do Distrito Federal também concluiu que não há o mais leve indício de que o diálogo tenha ocorrido.

Conforme todos os indícios disponíveis, portanto, quem mentiu foi  o  Secretário – não Dirceu.

Você pode continuar duvidando da inocência de Dirceu, claro. Mas não pode aceitar que seus direitos sejam subtraídos sem que sua culpa seja demonstrada. Mesmo na prisão, uma pessoa é inocente até que se prove o contrário.

É verdade que, no julgamento da AP 470, o ministro Luiz Fux chegou a dizer que cabe ao acusado provar sua inocência. Mas foi uma colocação tão fora de qualquer princípio jurídico posterior ao iluminismo que, nos acórdãos, a declaração foi suprimida.

O pedido para esse grampo-monstro foi feito pelo Ministério Público  em 26 de fevereiro mas ficou engavetado pelo juiz Bruno Ribeiro por mais de um mês. Quando se retirou do caso, no fim de março, Bruno enviou o pedido  a Joaquim Barbosa, a quem caberá a palavra final sobre o semiaberto de Dirceu. Joaquim pode acolher o pedido.

Mas também pode manter Dirceu em regime fechado enquanto aguarda pelos grampos Papuda-Bahia. Seria uma nova injustiça, mesmo para quem é favorável a uma investigação nessa natureza e acha que toda punição a Dirceu será pouca.

A liberdade de Dirceu não pode ser diminuída  porque os responsáveis pela sua prisão levaram um tempo absurdo– mais de um mês – para decidir se acatavam a solicitação ou não.

Ninguém pode ficar preso indevidamente porque o Justiça está “pensando.”

Quando foi preso, em 15 de novembro, Dirceu tinha direito ao regime semiaberto, provisoriamente. Antes que os embargos infringentes tivessem sido julgados, havia a possiblidade de que o Supremo confirmasse a condenação por formação de quadrilha.

Mas o STF derrubou a condenação, o que confirmou o semiaberto.

Assim, do ponto de vista de seus direitos,  Dirceu perdeu perdeu quatro mees de liberdade.

Se o apreço abstrato do caro leitor pela liberdade dos indivíduos não lhe permite avaliar o que isso significa, sugiro uma experiência concreta.

Peça a um amigo trancar a porta de seu quarto por um dia e faça um diário sobre o que fez e viu. Evite ligar a TV, porque ela só é autorizada a quem tem bom comportamento – e ninguém sabe se você merece isso.  Não leia jornais nem revistas. Limite a leitura aos livros mas apague a luz às 22 horas.  Desligue o telefone, não atenda a campainha e, se sentir fome, peça  um resto de geladeira para aquecer em banho-maria. Pode ser qualquer coisa que sobrou da véspera mas lembre-se de que, comparado com o que se oferece na Papuda, sempre será um privilégio.

E se você achar que é inocente, e não fez nada para merecer o que está acontecendo, só quis passar por uma experiência existencial, lembre-se: esse pensamento só é válido para quem acredita que toda pessoa é inocente até que se prove o contrário. Esse é o princípio que garante nossa liberdade.

Também é o princípio que deveria definir a situação de Dirceu. Ele passou oito anos sendo acusado como chefe de quadrilha e era este ponto – a quadrilha – que poderia manter seu regime fechado.

Depois que a acusação de quadrilha caiu ele é chefe de que mesmo?

E aí podemos falar do personagem a que Hanna Arendt se refere. Ela está falando de George Picquard, major do Exército francês, que teve um papel decisivo no reestabelecimento da verdade no caso do capitão Alfred Dreyfus, condenado em 1894 à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, com bom base em provas falsas.

“Embora dotado de uma boa formação católica,” e, como Arendt sublinha para registrar os preconceitos da época, “  ‘adequada’ antipatia pelos judeus, ele ainda não havia adotado o princípio de que o fim justifica os meios. ” Ela recorda que “esse homem, completamente divorciado do classicismo social e da ambição profissional, espírito simples, calmo e politicamente desinteressado” iria mostrar que havia encontrado provas que apontavam para outro culpado, sugerindo que o caso fosse reaberto.

Picquard acabou processado e perseguido, a ponto de enfrentar uma condenação num tribunal militar e deixar um posto confortável em Paris por um posto sem perspectiva na África colonial. Mas cinco anos depois de condenado, Dreyfus acabou recebendo indulto presidencial, depois de enfrentar um segundo julgamento – que perdeu,  mais uma vez.

A campanha pela libertação de Dreyfus não passou pelo parlamento, que rejeitou seguidos pedidos de um novo exame do caso. Foi fruto de uma movimentação da sociedade civil, a margem dos principais partidos políticos.

Mesmo os socialistas temiam perder votos se colocassem o assunto nos debates eleitorais. Atribui-se uma derrota de um de seus líderes históricos, Jean-Jaurés, hoje nome de boulevard em Paris, ao empenho a favor de Dreyfus. Ninguém recorda o nome dos que se omitiram.

O alto comando militar, responsável pela condenação de Dreyfus e, mais tarde, pela manutenção da farsa, alimentava a imprensa suja de Paris.  Numa avaliação  que nos ajuda a entender que a realidade que hoje se vê nos trópicos brasileiros tem muito a dever às asneiras cometidas na capital francesa daquele tempo, Arendt  analisa o mais duro dos jornais contra Dreyfus  para dizer: “direta ou indiretamente, através de seus artigos e da intervenção pessoal de editores, mobilizou estudantes, monarquistas, anarquistas, aventureiros e simples bandidos, e atirou-os nas ruas.” Essa turba espancava defensores de Dreyfus na rua e por várias vezes apedrejou as janelas de Emile Zola depois de seus artigos e conferencias mais contundentes.

Julgado pelo Eu Acuso, Zola recebeu pena máxima. Foi um alivio, pois se fosse absolvido “nenhum de nós sairia vivo do julgamento” recordou Georges Clemenceau, dono do jornal que publicou o artigo, L ‘Aurore.

Em 1975, em São Paulo, o rabino Henry Sobel  deu uma demonstração de caráter semelhante. Ele sequer era o rabino principal da comunidade paulistana. Apenas substituía o rabino principal, que se encontrava em viagem. Norte-americano de nascimento, Sobel admirava John Kennedy e nunca teve simpatias pelo Partido Comunista.

Mas, quando foi informado que o  corpo do jornalista Vladimir Herzog apresentava sinais de tortura, como fora percebido pelos funcionários do cemitério judeu que o preparavam para o enterro, Sobel tomou uma decisão de acordo com sua formação e suas convicções.

Impediu que Herzog fosse enterrado na área do cemitério reservada aos suicidas, como seria coerente com a versão oficial para a morte do jornalista – acompanhada até por uma fotografia forjada na cadeia – para lhe dar a dignidade de um enterro comum. O resto é história, feita por um cidadão tão humano, tão comum, que mais tarde seria apanhado num pequeno e desagradável incidente num shopping em Miami, como todos nós sabemos.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Base do governo protocola pedido de CPI ampla que investigará trensalão tucano


VicentinhoAssinaturas
Os líderes do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), e no Senado, senador José Pimentel (PT-CE), juntamente com o líder do PT na Câmara, deputado Vicentinho (SP), protocolaram nesta quinta-feira (3), na Secretaria-Geral da Mesa do Senado, pedido de abertura de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar várias denúncias de corrupção envolvendo a utilização de recursos públicos.

A proposta apresentada pelos líderes petistas não foca apenas a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, pela Petrobras, como pretende o bloco oposicionista liderado pelo DEM e PSDB. A proposição amplia o escopo da investigação para os metrôs de São Paulo, sob gestão do PSDB, e do Distrito Federal, em governos do PSDB e DEM, o porto de Suape, em Pernambuco, sob administração do PSB,  e contratos na área de tecnologia digital.

O requerimento contou com a assinatura de 32 senadores e 219 deputados, números superiores ao exigido pelos regimentos interno das duas Casas.

"O que queremos é a apuração da verdade", disse o líder Vicentinho. " E, se nas investigações do metrô de SP, do caso da Suape ou da Petrobras ficarem comprovadas irregularidades, os responsáveis deverão ser punidos".

O líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia, disse que o tema proposto pela oposição é recorrente. Ele explicou que em 2010, a pedido dos mesmos partidos, DEM e PSDB, foi instalada uma CPI que investigou as mesmas denúncias, ou seja, aquisição de Pasadena e a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. De acordo com Chinaglia, o resultado produzido por essa CPI foi encaminhado ao Tribunal de Contas da União, Ministério Público Federal, Controladoria Geral da União e Polícia Federal, os quais prosseguem com as investigações.

Ele avaliou que a nova investida da oposição "não faz justiça com o trabalho desenvolvido pelo próprio Senado, à época".

Arlindo Chinaglia frisou que o governo e a base aliada vão agir com "seriedade", para investigar tudo. Ele disse ainda que não há por parte do governo nenhuma preocupação e alertou: "Se a oposição quiser repetir o que ela fez na investigação do caso do senador Demóstenes Torres, de (Carlos) Cachoeira (bicheiro) e de um governador que já foi parlamentar do PSDB, saberemos, também, enfrentar situações como essa".

O líder do governo no Senado, senador José Pimentel reafirmou que o governo não tem medo de qualquer apuração, tanto é que defendeu a ampliação da investigação da CPI . De acordo com ele, a proposta foi feita para dar tranquilidade à sociedade brasileira. "Nosso governo vai continuar investigando, combatendo e prendendo, dentro do Estado Democrático de Direito, todos aqueles que cometem desvios de recursos", disse Pimentel.

Ele lamentou que tal prática não é verificada no estado de São Paulo, governado pelo PSDB. "Estamos há 20 anos tentando instalar uma CPI no estado de São Paulo. Ali, o PSDB não deixa investigar o desvio de recursos no sistema de transporte metroviário e ferroviário", observou.

Pimentel adiantou que a leitura do requerimento de abertura da CPMI ocorrerá no próximo dia 15 de abril na sessão do Congresso Nacional.

Leia a íntegra do requerimento que pede a CPMI. Clique aqui

Benildes RodriguesFoto: Gustavo Bezerra/PT na Câmara

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Berzoini diz que CPIs são práticas recorrentes da oposição sem projeto

liderberzoini

Após a sua primeira reunião com líderes da base aliada do Governo nesta quarta-feira (2) o ministro de Relações Institucionais da Presidência da República, Ricardo Berzoini afirmou que criação de comissões parlamentares de inquérito (CPIs) é prática recorrente da oposição em período eleitoral e revela ausência de proposta para o País.

Ele se referiu à criação, pelo Senado, de CPI para investigar supostas irregularidades na Petrobras.

“Já vimos aqui, nas disputas eleitorais de 2006 e 2010, situações semelhantes. A oposição, por falta de projeto para o Brasil apresenta proposta de CPI”, alfinetou Berzoini.

Ele reiterou que a iniciativa de criar várias CPIs para investigar a Petrobras não passa de manobra política, com vistas à disputa eleitoral.

“Uma CPI pedida em abril, a 180 dias da eleição, coincide exatamente com o calendário eleitoral. É uma iniciativa meramente eleitoral. Não é uma proposta para investigar seriamente”, observou Berzoini.

Para o ministro, com a manobra a oposição tenta  suprimir o direito dos eleitores de debater o futuro do Brasil. Ele lembrou que o assunto objeto da CPI  já está sendo tratado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, Controladoria-Geral da União e Tribunal de Contas da União.

Sobre a sugestão apresentada pelos senadores da base aliada, que amplia a investigação para apurar a participação das empresas Alstom e Siemens no escândalo do metrô de São Paulo, conhecido como trensalão tucano, e para as denúncias de desvios nas obras do Porto de Suape, em Pernambuco, o ministro disse que essa foi a resposta encontrada para as manobras impostas pela oposição.

“Eles estão manobrando de um jeito e a base do governo tem direito de apresentar  suas alternativas”, defendeu Berzoini.

A criação da CPI proposta pela base do governo no Senado foi uma iniciativa do líder do PT, Humberto Costa (PT-PE). "A ideia é ter uma só, porque o escopo da nossa é mais amplo", disse Humberto Costa.

Benildes Rodrigues
Foto: Gustavo Bezerra