domingo, 31 de março de 2013

Marcos Coimbra: Nova pesquisa, velhas frustrações


Fonte: Carta Capital

Nada dá certo para as oposições faz tempo. Elas tentam, se esforçam, mobilizam seus vastos recursos e as coisas não acontecem. Seu pior pesadelo parece prestes a se materializar.



Mão pesada. Dilma vetou vários pontos do Código Florestal. Foto: Evaristo Sá/AFPA tomar pelo que dizem os eleitores, quando perguntados sobre como pretendem votar na próxima eleição, Dilma Rousseff se reelegerá sem grandes problemas. Prognosticar sua vitória não é difícil para quem conhece um mínimo da sociedade brasileira.

Ela tem tudo para vencer:

a) A “inércia reeleitoral”, que beneficia até governantes mal avaliados (quem não se lembra dos muitos governadores e prefeitos que, apesar de enfrentarem sérias dificuldades, terminaram vencendo?).

b) Faz um governo bem avaliado, aprovado por quatro em cada cinco brasileiros (quem preferiria mudar, estando satisfeito com o que tem? Se há uma coisa em que o eleitor acredita é que mais vale um pássaro na mão do que dois voando).

c) Tem uma imagem pessoal muito positiva, é querida pela ampla maioria dos eleitores, que gostam de seu jeito de ser e se portar como presidenta (algum de seus possíveis adversários chega sequer perto do que ela alcança no julgamento da atuação pessoal?).

d) É conhecida e aprovada pela quase totalidade do eleitorado, não precisa perder tempo para se apresentar ao País (qual de seus oponentes em potencial pode dizer o mesmo, uma vez que todos existem em nichos regionais ou ideológicos?).

Confirmado o favoritismo, Dilma será a quarta chefe de governo eleita pelo PT em sequência. Ao cabo de seu segundo mandato, chegaremos a 16 anos de hegemonia petista na política brasileira.

O que será da atual geração de lideranças oposicionistas em 2018? Quantas estarão ainda em condições de atrair a atenção dos eleitores? Quantos de seus jovens terão envelhecido? Quantos dos atuais “formadores de opinião”, na mídia conservadora, estarão ainda na ativa? (A maioria é tão velha que, entre aposentados e falecidos, é possível que restem poucos).

A gravidade do quadro que as oposições enfrentam voltou a ser confirmada na semana passada, quando uma nova pesquisa do Datafolha a respeito da sucessão presidencial foi divulgada. Ela não trouxe novidade em relação ao que se sabia desde o início de 2012. Exatamente por isso, foi uma ducha de água fria no ânimo dos partidos da oposição e nos segmentos “antilulopetistas” da opinião pública.

Apesar dos esforços diários e da militância radicalizada da mídia de direita, Dilma fica cada vez melhor na corrida eleitoral. Enquanto isso, seus adversários patinam ou retrocedem. Entre dezembro de 2012 e março deste ano, ela foi de 54% a 58%, na vizinhança dos 60%, patamar onde outras pesquisas já a haviam colocado. Marina Silva (sem partido) e Aécio Neves (PSDB-MG) perderam 2% cada um, ela de 18% para 16% e ele de 12% para 10%.

Mais frustrante para a mídia foi, no entanto, o modesto crescimento do governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Depois de “bombado” incessantemente na mídia, foi de escassos 4% a escassos 6%.

Uma simples aritmética mostra que os três não mudaram seu tamanho total: somavam 34%, em dezembro, e foram a 32%, em março. No máximo, o que teria ocorrido seria uma pequena reacomodação no terço do eleitorado que não pretende votar na presidenta: Campos tirou uma lasquinha de Marina e de Aécio.

Em votos válidos (a conta relevante para especular sobre vitórias em primeiro turno), Dilma teria, hoje, perto de 64%. Muito próximo de alcançar, sozinha, o dobro da soma dos demais.

Significa que “já ganhou”, que vencerá no primeiro turno? Claro que não, e seria um equívoco se sua assessoria interpretasse assim a pesquisa. Mas que os resultados do Datafolha foram uma decepção para as oposições, disso não há dúvida.

O que lhes resta fazer?

O circo armado em torno do julgamento do “mensalão” foi inútil do ponto de vista eleitoral. O PT não perdeu espaço em 2012 e nada indica que será afetado em 2014.

A tese da incompetência gerencial da presidenta, à qual se dedicaram assim que perceberam o insucesso anterior, não tem adeptos na maioria da opinião pública. Ao contrário, os brasileiros se mostram cada vez mais satisfeitos com o desempenho do governo.

A valorização dos possíveis adversários não comove os eleitores de Dilma. Campos, seu mais dileto produto na atualidade, permanece com números de nanico.

Quando pesquisas como essa são publicadas, ficam tristes e devem pensar no “povinho” que Deus pôs no Brasil. O problema é que não podem trocá-lo. Ou será que vão procurar prescindir dele na hora de decidir quem vai mandar?

quarta-feira, 27 de março de 2013

Luiz Dulci lança livro dia 2 sobre a transformação recente do Brasil


O ex-ministro da Secretaria Geral da Presidência da República no governo Lula, Luiz Dulci, lança na próxima terça-feira (2), às 19h30, no Sindicato dos Bancários de Brasília, o livro Um Salto para o Futuro. O livro discorre sobre  as transformações implementadas pelo PT à frente do Governo Federal.

O relato se concentra nos paradigmas enfrentados por Luiz Inácio Lula da Silva entre 2003 e 2010.

Na obra, Um Salto Para o Futuro: Como o Governo Lula colocou o Brasil na rota do desenvolvimento, Dulci mostra o cenário nebuloso no campo econômico, político e social encontrado por Lula e como ele enfrentou os desafios apresentados.  

O livro relata como o Governo liderado pelo PT  colocou o Brasil na trilha do desenvolvimento, a partir de um novo modelo de crescimento que privilegiou políticas sociais de combate à pobreza e à miséria, na geração de emprego e renda, na ascensão social contínua, entre outros. Na narrativa, o autor destaca o rompimento do governo Lula com o dogmatismo neoliberal presente em governos anteriores.

Luiz Dulci usou da sua experiência como ministro para relatar  as nuances políticas adotadas no período Lula e que ainda permanecem no governo da presidenta Dilma Rousseff. A obra legitima os caminhos adotados no enfrentamento, entre outros, das dicotomias entre estabilidade e crescimento; exportação e mercado interno; mercado e Estado; econômico e social; capitalismo de ponta e desenvolvimento regional; integração subalterna e isolamento internacional; democracia representativa e participação social.

“Quando esse país voltar a crescer, não vai ser só por alguns meses, vai ser por muitos anos. E não será apenas para alguns, será para todos”, palavra do presidente Lula, relatada na obra.

Benildes Rodrigues com Fundação Perseu Abramo

LULA: “Dilma está sendo aquilo que eu esperava dela. Foi um grande acerto”


LulaVAlorentrevista
A um ano e meio sucessão presidencial, o ex-presidente  Lula  avalia que Dilma vai chegar em posição “muito confortável” a outubro de 2014. Lula chega mesmo a fazer um vaticínio: “Se a gente trabalhar com seriedade, humildade e respeitando nossos adversários e a economia estiver bem, com a inflação controlada e o emprego crescendo, acho que certamente a Dilma tem ampla chance de ganhar no primeiro turno.”
Lula concedeu uma entrevista às repórteres Vera Brandimarte, Cristiane Agostine e Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico. A conversa está publicada na edição de quarta-feira (27) do jornal ‘Valor Econômico’. Sobre a sucessão, Lula informou que, se Eduardo Campos (PSB) quiser mesmo disputar o Planalto, não pedirá que desista. “Não faz parte da minha índole pedir para as pessoas não se candidatarem porque pediram muito para eu não ser. Se eu não fosse candidato eu não teria ganho.”
Declara-se animado para a campanha. “Eu quero palanque”, afirma. Ainda rouco, Lula diz que os médicos já o liberaram. Rindo, diz que daria um jeito mesmo se houvesse restrições: “Se eu não puder [falar] eu levo um cartaz dela na mão.” Lula não descarta a hipótese de recandidatar-se em 2018. “Vai que, de repente, eles precisam de um velhinho para fazer as coisas. Não é da minha vontade. Acho que já dei minha contribuição. Mas em política a gente não descarta nada.”
Sobre matérias de cunho neoudenista a respeito de suas viagens ao exterior, com a presença de empresários: “Se alguém tiver um produto brasileiro e tiver vergonha de vender, me dê que eu vendo. Não tenho vergonha de continuar fazendo isso”, declara, antes de perguntar: “Como é que viaja um Clinton? A serviço de quem? Pago por quem? Fernando Henrique Cardoso?”

Veja a íntegra da entrevista  :

Valor: Como está sua saúde?
Luiz Inácio Lula da Silva: Agora estou bem. Há um ano vou à fisioterapia todos os dias às 6h da manhã. Minha perna agora está 100%. Estou com 84 quilos. É 12 a menos do que já pesei mas é oito a mais do que cheguei a ter. Não tem mais câncer, mas a garganta leva um bom tempo para sarar. A fonoaudióloga diz que é como se fosse a erupção de um vulcão. Tem uma pele diferenciada na garganta que leva tempo para cicatrizar. Quando falo dá muita canseira na voz. Já tenho 67 anos. Não é mais a garganta de uma pessoa de 30 anos.
Valor: O senhor deixou de fumar e beber?
Lula: Não dá mais porque irrita a garganta.
Valor: Dois anos e três meses depois do início do governo Dilma, qual foi seu maior acerto e principal erro?
Lula: Quando deixei a Presidência, tinha vontade de dar minha contribuição para a Dilma não me metendo nas coisas dela. E acho que consegui fazer isso quando viajei 36 vezes depois de deixar o governo. Fiquei um ano imobilizado por causa do câncer. Estou voltando agora por uma coisa mais partidária. Sinceramente acho que no meu governo eu deixei muita coisa para fazer. Por isso foi importante eleger a Dilma, para ela dar continuidade e fazer coisas novas. O Brasil nunca esteve em tão boas mãos como agora. Nunca esse país teve uma pessoa que chegou na Presidência tão preparada como a Dilma. Tudo estava na cabeça dela, diferentemente de quando eu cheguei, de quando chegou Fernando Henrique Cardoso. Você conhece as coisas muito mais teóricas do que práticas. E ela conhecia por dentro. Por isso que estou muito otimista com o sucesso da Dilma e ela está sendo aquilo que eu esperava dela. Foi um grande acerto. Tinha obsessão de fazer o sucessor. Eu achava que o governante que não faz a sucessão é incompetente.
Valor: A presidente baixou os juros, desonerou a economia, reduziu tarifas de energia e apreciou o câmbio. Ainda assim não se nota entusiasmo empresarial por seu governo ou sua reeleição. A que o senhor atribui a insatisfação? Teme-se que esse governo não tenha uma política anti-inflacionária tão firme ou é pela avaliação de que o governo Dilma seja intervencionista?
Lula: Não creio que haja má vontade dos empresários com a presidente. Passamos por algumas dificuldades em 2011 e 2012 em função das políticas de contração para evitar a volta da inflação. Foi preciso diminuir um pouco o crédito e aí complicou um pouco, mas Dilma tem feito a coisa certa. Agora tem conversado mais com setores empresariais. Acho que os empresários brasileiros, e eu vivi isso oito anos assim como Fernando Henrique também viveu, precisam compreender que uma economia vai ter sempre altos e baixos. Não é todo dia que a orquestra vai estar sempre harmônica. O importante é não perder de vista o horizonte final. O Brasil está recebendo US$ 65 bilhões de investimento direto. Então não dá para se ter qualquer descrença no Brasil nesse momento. Nunca os empresários brasileiros tiveram tanto acesso a crédito com um juro tão baixo. Vamos supor que a Dilma não tivesse a mesma disposição para conversar que eu tinha. Por razões dela, sei lá. O dado concreto é que, de uns tempos para cá, a Dilma tem colocado na agenda reuniões com empresários e partidos políticos.
Valor: Os empresários acham que ela é ideológica demais…
Lula: O que é importante é que ela não perde suas convicções ideológicas, mas não perde o senso prático para governar o país. Ela não vai governar o país com ideologia. Se alguém ainda aposta no fracasso da Dilma, pode começar a quebrar a cara. Ela tem convicção do que quer. Esses dias liguei para ela e disse para tomar cuidado para não passar dos 100%. Porque há espaço para ela crescer. Vai acontecer muito mais coisa nesse país ainda. Não adianta torcer para não ter sucesso. Não há hipótese de o Brasil não dar certo.
Valor: A queixa é de que tudo que eles [os empresários] precisam têm que falar com a presidente porque os ministros não têm autonomia para decidir, ela não delega. É isso?
Lula: Se isso foi verdade, já acabou. Sinto, nos últimos meses, que a Dilma tem feito muito mais reuniões. Tem soldado muito mais o governo. A pesquisa mostra que o governo vem crescendo e vai chegar perto dela nas pesquisas. E os ajustes vão acontecendo. É a primeira vez que a gente tem uma mulher. O papel dela não é tão fácil quanto o meu porque 99% das pessoas que recebia eram homens, e homem fala coisa que mulher não pode falar, conta piada. Não há hábito do homem ainda perceber a mulher num cargo mais importante. Mas os homens vão ter que se acostumar. Uma mulher não pode se soltar numa reunião onde só tenha homem. Então acho que as pessoas têm que aprender a gostar das outras pessoas como elas são. A Dilma é assim e é assim que ela é boa para o Brasil. A mesma coisa é a Graça [Foster]. É uma mulher muito respeitada também. Não brinca nem é alegre, mas cada um tem seu jeito de ser.
Valor: Seu governo viabilizou projetos essenciais para o rumo que a economia pernambucana tomou, como o polo petroquímico e a fábrica da Fiat. A pré-candidatura Eduardo Campos, que agrega adversários fidagais de seu governo, como Jarbas Vasconcelos e Roberto Freire, e anima até José Serra, é uma traição?
Lula: Não. Minha relação de amizade com Eduardo Campos e com a família dele, que passa pela mãe, pelo avô e pelos filhos, é inabalável, independentemente de qualquer problema eleitoral. Eu não misturo minha relação de amizade com as divergências políticas. Segundo, acho muito cedo pra falar da candidatura Eduardo. Ele é um jovem de 40 e poucos anos. Termina seu mandato no governo de Pernambuco muito bem avaliado. Me parece que não tem vontade de ser senador da República nem deputado. O que é que ele vai ser? Possivelmente esteja pensando em ser candidato para ocupar espaço na política brasileira, tão necessitada de novas lideranças. Se tirar o Eduardo, tem a Marina que não tem nem partido político, tem o Aécio que me parece com mais dificuldades de decolar. Então é normal que ele se apresente e viaje pelo Brasil e debata. Ainda pretendo conversar com ele. A Dilma já conversou e mantém uma boa relação com ele.
Valor: O Fernando Henrique teve como candidato um ministro e o senhor também. O senhor acha que ainda é possível demover Eduardo Campos com a proposta de que ele se torne um ministro importante no governo Dilma e depois seu candidato? É possível se comprometer com quatro anos de antecedência?
Lula: Somente Dilma é quem pode dizer isso. Não tenho procuração nem do Rui Falcão [presidente do PT] nem da Dilma para negociar qualquer coisa. Vou manter minha relação de amizade com Eduardo Campos e minha relação política com ele. Até agora não tem nada que me faça enxergá-lo de maneira diferente da que enxergava um ano atrás. Se ele for candidato vamos ter que saber como tratar essa candidatura. O Brasil comporta tantos candidatos. Já tive o PSB fazendo campanha contra mim. O Garotinho foi candidato contra mim. O Ciro também. E nem por isso tive qualquer problema de amizade com eles. Candidaturas como a do Eduardo e da Marina só engrandecem o processo democrático brasileiro. O que é importante é que não estou vendo ninguém de direita na disputa.
Valor: Já que o senhor tem uma relação tão forte de amizade com ele, vai pedir para Eduardo Campos não se candidatar?
Lula: Não faz parte da minha índole pedir para as pessoas não se candidatarem porque pediram muito para eu não ser. Se eu não fosse candidato eu não teria ganho. Precisei perder três eleições para virar presidente. Eu não pedirei para não ser candidato nem para ele nem para ninguém. A Marina conviveu comigo 30 anos no PT, foi minha ministra o tempo que ela quis, saiu porque quis e várias pessoas pediram para eu falar com ela para não ser candidata e eu disse: “Não falo”. Acho bom para a democracia. E precisamos de mais lideranças. O que acho grave é que os tucanos estão sem liderança. Acho que Serra se desgastou. Poderia não ter sido candidato em 2012. Eu avisei: não seja candidato a prefeito que não vai dar certo. Poderia estar preservado para mais uma. Mas Serra quer ser candidato a tudo, até síndico do prédio acho que ele está concorrendo agora. E o Aécio não tem a performance que as pessoas esperavam dele.
Valor: Quem é o adversário mais difícil da presidente: Aécio, Marina ou Eduardo?
Lula: Não tem adversário fácil. O que acho é que Dilma vai chegar na eleição muito confortável. Se a gente trabalhar com seriedade, humildade e respeitando nossos adversários e a economia estiver bem, com a inflação controlada e o emprego crescendo, acho que certamente a Dilma tem ampla chance de ganhar no primeiro turno.
Valor: Como vai ser sua atuação na campanha de 2014? Vai atuar mais nos bastidores, na montagem das alianças, ou vai subir em palanque em todos os Estados?
Lula: Eu quero palanque.
Valor: Vai subir em Pernambuco e pedir votos para Dilma?
Lula: Vou. Vou lá, vou em Garanhuns, vou no Rio, São Paulo, na Paraíba, em Roraima…
Valor: Seus médicos já liberaram?
Lula: Já. Se eu não puder eu levo um cartaz dela na mão (risos). Não tem problema. Acho que ela vai montar uma coordenação política no partido e eu não sou de trabalhar bastidores. Eu quero viajar o país.
Valor: Nem às costuras de alianças o senhor vai se dedicar?
Lula: Não precisa ser eu. O PT costura.
Valor: Quais são as alianças mais difíceis? Como resolver o problema do Rio?
Lula: No Rio tem uma coisa engraçada porque nós temos o Pezão, que é uma figura por quem eu tenho um carinho excepcional. Nesses oito anos aprendi a gostar muito do Pezão, um parceiro excepcional. E tem o Lindbergh.
Valor: Ele disse que vai fazer o que o senhor mandar…
Lula: Não é bem assim. Eu não posso tirar dele o direito de ser candidato. Ele é um jovem talentoso, um encantador de serpentes, como diriam alguns, com uma inteligência acima da média, com uma vontade de trabalhar, como poucas vezes vi na vida. Ele quer ser. Cabe ao partido sempre tratar com carinho, porque nós temos que ter sempre como prioridade o projeto nacional. Ou seja: a primeira coisa é a eleição da Dilma. Não podemos permitir que a eleição da Dilma corra qualquer risco. Não podemos truncar nossa aliança com o PMDB. Acho que o PT trabalha muito com isso e que Lindbergh pode ser candidato sem causar problema. Acho que o Rio vai ter três ou quatro candidaturas e ele, certamente, vai ser uma candidatura forte. Obviamente Pezão será um candidato forte, apoiado pelo governador e pela prefeitura. Na minha cabeça o projeto principal é garantir a reeleição de Dilma. É isso que vai mudar o Brasil.
Valor: Aqui em São Paulo o candidato é o Padilha?
Lula: Olha, acho que a gente não tem definição de candidato ainda. Você tem Aloizio Mercadante, que na última eleição teve 35% dos votos, portanto ele tem performance razoável. Tem o Padilha, que é uma liderança emergente no PT, que está em um ministério importante. Tem a Marta que eu penso que não vai querer ser candidata desta vez. Tem outras figuras novas como o Luiz Marinho, que diz que não quer ser candidato. Tem o José Eduardo Cardozo, que vira e mexe alguém diz que vai ser candidato e você pode construir aliança com outros partidos políticos. Para nós a manutenção da aliança com o PMDB aqui em São Paulo é importante.
Valor: Isso passa até pelo PT aceitar um candidato do PMDB?
Lula: Se tiver um candidato palatável, sim. Nós nunca tivemos tanta chance de ganhar a eleição em São Paulo como agora. A minha tese é a mesma da eleição de Fernando Haddad. Ou seja, alguém que se apresente com capacidade de fazer uma aliança política além dos limites do PT, além dos limites da esquerda. Como é cedo ainda, temos um ano para ver isso. Eu fico olhando as pessoas, vendo o que cada um está fazendo. E pretendo, se o partido quiser me ouvir, dar um palpite.
Valor: Em 2012, em São Paulo, o senhor defendeu a renovação do partido, com um candidato novo. Essa fórmula será mantida para o governo do Estado?
Lula: Hoje temos condições de ver cientificamente qual é o candidato que o povo espera. Por exemplo, quando Haddad foi candidato a prefeito, eu nunca tive qualquer preocupação. Todas as pesquisas que a gente trabalhava, as qualitativas que a gente fazia, toda elas mostravam que o povo queria um candidato como ele. Então era só encontrar um jeito de desmontar o Russomanno, que em algum lugar da periferia se parecia com o candidato do PT. Na época eu não podia nem fazer campanha direito. Estava com a garganta inchada. Eu subia no caminhão para fazer discurso sem poder falar, mas era necessário convencer as pessoas de que o candidato do PT era o Haddad, não era o Russomanno. Quando isso engrenou, o resto foi mais tranquilo. Para o governo do Estado é a mesma coisa. Não é quem sai melhor na pesquisa no começo. É quem pode atender os anseios e a expectativa da sociedade.
Valor: E quem pode?
Lula: Não sei. Temos que ter muito critério na escolha. A escolha não pode ser em função só da necessidade da pessoa, de ela querer ser. Tem que ser em função daquilo que é importante para construir um leque de aliança maior. Temos que costurar aliança, temos que trazer o PTB, manter o Kassab na aliança e o PMDB. Precisamos quebrar esse hegemonismo dos tucanos aqui em São Paulo, porque eles juntam todo mundo contra o PT. Precisamos quebrar isso. Acho que temos todas as condições.
Valor: Desde que deixou a Presidência, o senhor tem sido até mais alvejado que a presidente. Foi acusado de tentar manter a chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo. Agora foi acusado de ter suas viagens financiadas por empreiteiras. Como o senhor recebe essas críticas e como as responde?
Lula: Quando as coisas são feitas de muito baixo nível, quando parecem mais um jogo rasteiro, eu não me dou nem ao luxo de ler nem de responder. Porque tudo o que o Maquiavel quer é que ele plante uma sacanagem e você morda a sacanagem. É que nem apelido: se eu coloco um apelido na pessoa e a pessoa fica nervosa e começa a xingar, pegou o apelido. Se ela não liga, não pegou o apelido. Tenho 67 anos de idade. Já fiz tudo o que um ser humano poderia fazer nesse país. O que faz um presidente da República? Como é que viaja um Clinton? A serviço de quem? Pago por quem? Fernando Henrique Cardoso? Ou você acha que alguém viaja de graça para fazer palestra para empresários lá fora? Algumas pessoas são mais bem remuneradas do que outras. E eu falo sinceramente: nunca pensei que eu fosse tão bem remunerado para fazer palestra. Sou um debatedor caro. E tem pouca gente com autoridade de ganhar dinheiro como eu, em função do governo bem-sucedido que fiz neste país. Contam-se nos dedos quantos presidentes podem falar das boas experiências administrativas como eu. Quando era presidente, fazia questão de viajar para qualquer país do mundo e levar empresários, porque achava que o presidente pode fazer protocolos, assinar acordo de intenções, mas quem executa a concretude daquilo são os empresários. Viajo para vender confiança. Adoro fazer debate para mostrar que o Brasil vai dar certo. Compre no Brasil porque o país pode fazer as coisas. Esse é o meu lema. Se alguém tiver um produto brasileiro e tiver vergonha de vender, me dê que eu vendo. Não tenho nenhuma vergonha de continuar fazendo isso. Se for preciso vender carne, linguiça, carvão, faço com maior prazer. Só não me peça para falar mal do Brasil que eu não faço isso. Esse é o papel de um político que tem credibilidade. Foi assim que ganhei a Olimpíada, a Copa do Mundo. Quando Bush veio para cá e fomos a Guarulhos, disse a ele que era para tirarmos fotografia enchendo um carro de etanol. Tinham dois carros, um da Ford e um da GM, e ele falou: “Eu não posso fazer merchandising”. Eu disse: “Pois eu faço das duas”. Da Ford e da GM. E o Bush tirou foto com chapéu da Petrobras. Sem querer ele fez merchandising da Petrobras. Você sabe que eu fico com pena de ver uma figura de 82 anos como o Fernando Henrique Cardoso viajar falando que o Brasil não vai dar certo. Fico com pena.
Valor: O senhor acha que São Paulo corre risco de perder a abertura da Copa porque o Banco do Brasil não vai liberar dinheiro sem garantias?
Lula: Sinceramente não acredito que as pessoas que fizeram o sacrifício para chegar onde chegaram vão se permitir morrer na praia agora. A verdade é que o Corinthians precisa de um estádio de futebol independentemente de Copa do Mundo. São Paulo não pode ficar fora da Copa. Acho que seria um prejuízo enorme do ponto de vista político e simbólico o Estado mais importante da Federação, com os times mais importantes da Federação – com respeito ao Flamengo – esteja fora da Copa do Mundo. É impensável. Eles que tratem de arranjar uma solução.
Valor: O senhor voltará à política em 2018?
Lula: Não volto porque não saí.
Valor: Voltará a se candidatar?
Lula: Não. Estarei com 72 anos. Está na hora de ficar quieto, contando experiência. Mas meu medo é falar isso e ler na manchete. Não sei das circunstâncias políticas. Vai saber o que vai acontecer nesse país, vai que de repente eles precisam de um velhinho para fazer as coisas. Não é da minha vontade. Acho que já dei minha contribuição. Mas em política a gente não descarta nada.
Valor: Que análise o senhor faz do julgamento do mensalão?
Lula: Não vou falar por uma questão de respeito ao Poder Judiciário. O partido fez uma nota que eu concordo. Vou esperar os embargos infringentes. Quando tiver a decisão final vou dar minha opinião como cidadão. Por enquanto vou aguardar o tribunal. Não é correto, não é prudente que um ex-presidente fique dizendo “Ah, gostei de tal votação”, “Tal juiz é bom”. Não vou fazer juízo de valor das pessoas. Quando terminar a votação, quando não tiver mais recursos vou dizer para você o que é que eu penso do mensalão.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Brasileiros elegem PT como preferido e avaliam como positivo apoio do partido a Dilma


Levantamento feito pelo Instituto Datafolha, divulgado no último fim de semana, revelou que 55% da população brasileira faz uma avaliação positiva da contribuição do Partido dos Trabalhadores ao governo da presidenta Dilma Rousseff. A pesquisa revelou também que 72% dos pesquisados consideram o governo petista como sendo bom. Além disso, o estudo apontou que o partido, mais uma vez, mantém a preferência junto ao eleitorado brasileiro. O PT é o mais querido para 29% da população, contra 7,5% do PMDB e 4,5% do PSDB.

A pesquisa aponta ainda que 47% dos pesquisados consideram que o PT ajuda muito ao Governo. Com relação ao questionamento se o desempenho da administração do PT nos últimos dez anos era bom ou ruim, além dos 72% que avaliaram positivamente a gestão petista,  13% classificaram de ruim e 9% dos entrevistados manifestaram-se como indiferentes.

Para os deputados paulistas e ex-presidentes do PT, José Genoíno (2003-2005) e Ricardo Berzoini (2005-2010), a presença marcante do partido no governo Dilma, avaliada positivamente pelos pesquisados, serve para orientar o PT e mostra seu papel fundamental ao longo dos 10 anos à frente da administração federal. “O protagonismo do partido é essencial para garantir a continuidade do projeto e a governabilidade”, avaliou Genoíno.

Para o deputado Berzoini, a população brasileira identifica o PT como um fator de “estabilidade” e “avanço”, tanto no governo do ex-presidente Lula como, agora, no governo Dilma. “A população, ao avaliar o governo, percebe que por trás desse governo existe um partido que tem uma história de luta, de mobilização, de defesa dos mais pobres e isso acaba se refletindo não só na aprovação do governo, mas na percepção de que o PT ajuda o governo a avançar”, enfatizou Ricardo Berzoini.

Ainda de acordo com Berzoini, a preferência de 29% dos entrevistados pelo Partido dos Trabalhadores, confirma que o PT é o partido mais querido do Brasil. Esse índice, explica o parlamentar, o PT vem conquistando desde o segundo mandato do governo Lula. “A preferência do eleitorado brasileiro pelo PT oscila entre 25 e 30%, bem distante do segundo colocado que é o PMDB”, observou.

Benildes Rodrigues
Imagem extraída do Blog do Wagner Marins

quinta-feira, 21 de março de 2013

Audiência: Guido Mantega defende unificação do ICMS e fim da guerra fiscal


mantegasenadoO ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nesta quinta-feira (21), em audiência realizada pelas comissões de Assuntos Econômicos (CAE) e de Serviços de Infraestrutura (CI) do Senado, que "o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é hoje o tributo que mais atrapalha a produção". Segundo ele, isso ocorre porque esse imposto não é unificado em todo o País.

Essa percepção, explicou o ministro, é do próprio setor produtivo do país. Para Mantega, o ICMS cria entraves para alocação de recursos. Segundo ele, no momento em que as empresas escolhem onde investir, elas o fazem a partir da tributação cobrada e não daquilo que seria mais produtivo. Ele adiantou que existem 27 regimes de ICMS no país em virtude dos 26 estados e o Distrito Federal.

Mantega compareceu ao Senado para debater a proposta que prevê a unificação das alíquotas interestaduais do ICMS e a Medida Provisória (MP 599/12) que cria fundos que objetivam compensar os estados que serão atingidos com a redução dos tributos. As alíquotas que hoje são de 7 % a 12%, pela proposta de unificação, será de 4% em doze anos.

Insegurança jurídica - O ministro disse ainda que a chamada “guerra fiscal” provoca incerteza jurídica, uma vez que muitas medidas, como os subsídios concedidos pelos estados, são questionadas no Supremo Tribunal Federal (STF). “A guerra fiscal, se teve utilidade para os estados num certo período, agora deixa de ter, porque se generalizou. Todos passaram a utilizar esse instrumento”, reclamou.

Cenário mundial – Para Mantega, o baixo crescimento do comércio mundial é preocupante. Ele informou que em 2011 a taxa que era de 17,8% caiu para 0,7% em 2012. A previsão para 2013, segundo ele, é de 3,9%. O ministro disse que, para o Brasil, o importante é investir com vistas ao aumento da produtividade e da competitividade. Para enfrentar esse cenário nebuloso, ele apontou duas medidas que serão aposta do governo: o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Programa de Infraestrutura, que conta com 470 bilhões a serem investidos em ferrovia, rodovia, aeroportos, entre outros.

Benildes Rodrigues com Agências

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado





terça-feira, 19 de março de 2013

Regulação da mídia britânica é exemplo a ser seguido pelo Brasil, avalia petista


fernandoferrotribunaO deputado Fernando Ferro (PT-PE) discursou em plenário nesta terça-feira (19), sobre a decisão do parlamento do Reino Unido de promover a regulamentação da mídia daquele país. Para ele, a decisão foi um passo importante e pode ser seguida pelo Brasil.

“Todas as democracias modernas têm alguns tipos de ajustes legais e jurídicos para os setores da mídia. O Brasil, para ter democracia de fato, precisa ter instrumentos de regulamentação dos seus meios de comunicação”, avaliou Ferro.

Fernando Ferro disse que a regulamentação do  setor da imprensa não pode ser confundido com censura, com ausência de liberdade de expressão. No Brasil, explicou, não se faz esse debate porque qualquer tentativa nessa direção é vista pelos “barões” da mídia como censura. “Esse é um debate que precisamos fazer. Os barões da imprensa não têm o direito de nos calar. Jornalistas e empresários amestrados querendo impedir o debate. Enquanto isso, o que se vê é a destruição de reputação, é enxovalhamento de pessoas e fica tudo por isso mesmo”, reclamou Fernando Ferro.

O parlamentar petista lembrou que o processo do Reino Unido foi acelerado após escândalo envolvendo o magnata da imprensa britânica, Rupert Murdoch, dono do tabloide News of the Word, denunciado por práticas ilegais no exercício do jornalismo.  Ferro traçou um paralelo entre o escândalo britânico e o caso brasileiro que teve como atores o jornalista e diretor da revista Veja, Policarpo Júnior e o contraventor Carlos Cachoeira. “Eles fizeram investigações ocultas para atender interesses criminosos e interesses da mídia. O Brasil precisa impedir que esse tipo de delinquência fique impune”, enfatizou.

Para constituir o colegiado que vai mediar as decisões acerca dos procedimentos adotados pela imprensa britânica foram necessários debates que contaram com a participação dos três principais partidos: Conservador, de David Cameron,  Liberal Democrata, da base governista e a oposição representada pelo Partido Trabalhista.  O novo órgão regulador foi aprovado pelo Parlamento Britânico na segunda-feira (18).

Benildes Rodrigues com Agência

Aprovação do governo e da presidenta Dilma Rousseff atinge novo recorde


dilmagaranhunsPesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) ao Ibope, divulgada nesta terça-feira (19), revela que a aprovação do governo e da presidenta Dilma Rousseff bateu novo recorde.


O levantamento aponta que tanto a avaliação do governo, quanto da presidenta apresentaram crescimento, pela terceira vez consecutiva. De acordo com a pesquisa, 63% dos entrevistados avaliam o governo como ótimo e bom. Já o índice dos brasileiros que aprovam o modo de governar da presidenta Dilma Rousseff, passou de 78%, em dezembro, para 79% em março.

O índice de confiança dos brasileiros na presidenta chegou a 75%, contra 22% que não confiam. A expectativa dos entrevistados em relação ao governo alcançou a marca de 65%, três pontos percentual a mais, em comparação com a pesquisa realizada em dezembro do ano passado. Segundo a pesquisa, apenas 29% avaliam a administração como regular e 7% como ruim/péssima e os que desaprovam a maneira de governar somam 17%.

Um dos questionamentos feitos na pesquisa foi se os entrevistados achavam que o governo Dilma era melhor, pior ou igual ao governo do ex-presidente Lula. A maioria, ou seja, 61% dos pesquisados avaliaram que o governo Dilma é igual ao de Lula.

De acordo com o Instituto, entre os fatores que contribuíram para o novo recorde estão: a baixa taxa do desemprego, apesar da crise internacional; as políticas sociais que mantiveram o foco iniciado no governo do ex-presidente Lula e o carisma pessoal, ou seja, a forma como a presidenta Dilma resolve os problemas, sua competência e segurança nas decisões tomadas.

Para o líder da bancada do PT na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), os indicadores  apontados na pesquisa representam o acerto da condução política que a presidenta está dando ao País. “É o acerto das medidas que ela vem anunciando para sustentabilidade e retomada do crescimento em 2013. É grande a segurança de que estamos no caminho certo”, avaliou Guimarães. Para o líder do PT, a população brasileira percebe a maneira “determinada e decidida como a presidenta governa o Brasil”, ressaltou.

Comparação - Nas pesquisas feitas e divulgadas nos meses de setembro e dezembro, 62% entrevistados avaliaram o governo como ótimo e bom. O índice se manteve nos dois levantamentos. Os mesmos índices em relação àqueles que consideram o governo regular, ruim ou péssimo também se mantiveram, atingindo o percentual de 29% e 7%, respectivamente.

Nordeste – O levantamento aponta que 72% da população do Nordeste considera o governo Dilma  ótimo ou bom. Na aferição feita em dezembro, esse número era de 68%.  A maneira de governar da presidenta alcançou a aprovação de  85% dos entrevistados na região. Esse índice era de 80% na pesquisa feita em dezembro do ano passado.

A pesquisa foi realizada entre os dias oito e 11 de março e ouviu 2002 pessoas, em 143 municípios.


Benildes Rodrigues

segunda-feira, 18 de março de 2013

Comissão debate aprimoramento das instituições para aperfeiçoar democracia


rogerio carvalhoFoi instalada no ano passado a comissão especial criada para debater e elaborar propostas que visem o aprimoramento das instituições brasileiras. O relator da comissão, deputado Rogério Carvalho (PT-SE), entende que houve avanços, que desafios foram superados, mas defende o aprofundamento nos temas que dizem respeito ao Sistema de Governo; Estado versus Governo; Estrutura Federativa e Democracia Representativa e Participativa.

“O nosso sistema de governo é uma inovação, mas ele garante a democracia? O governo está conseguindo fazer valer a vontade popular, ou está sufocado pelas instituições de Estado? São questões que precisamos aprofundar e superar”, avaliou em entrevista ao PT na Câmara.

Confira a entrevista:

Por Benildes Rodrigues

PT na Câmara – O objetivo da comissão é aperfeiçoar a democracia. Como atingir esse objetivo?

Rogério Carvalho – A partir de quatro eixos do debate: Sistema de Governo; Estado versus Governo; Estrutura Federativa e Democracia Representativa e Participativa. A primeira questão é quanto a esse sistema de governo, onde o chefe do Estado e do governo é o presidente da República eleito, associado a um Parlamento que decide sobre questões do governo e Estado. Analisar se esta formatação facilita a democracia.

PT Na Câmara – Qual é a avalição que o senhor faz?

Rogério Carvalho - A minha opinião é que esse sistema de governo fortalece a democracia e torna o Parlamento forte, porque ele é chamado a opinar nas questões de governo e de Estado, em questões relacionadas ao funcionamento da sociedade. Acho que esse sistema favorece a consolidação da democracia.

PT Na Câmara - E a polêmica que envolve a edição de Medidas Provisórias?

Rogério Carvalho - Eu particularmente acho que é um instrumento que fortalece o Congresso Nacional, ao contrário do que dizem, ou seja, que as MPs diminuem a força, ou espremem o Congresso. A MP fortalece o Congresso porque o convida a decidir sobre questões de governo. Se a gente entende que somos um sistema presidencialista, com Parlamento forte não tem como o presidente avançar sem ouvi-lo.

PT Na Câmara - A sociedade tem essa compreensão?

Rogério Carvalho - Precisamos consolidar uma opinião contrária à ideia de que a Medida Provisória é danosa ao país, ou que há ingerência do Executivo sobre o Legislativo. Ambos são autônomos, porém, ambos governam o país e nesta dimensão é preciso que haja provocação permanente daquele que tem a tarefa executiva àquele que tem a tarefa de representar os interesses da sociedade e legitimar as demandas apontadas como fundamentais para garantir a governança.

PT Na Câmara – E o debate sobre governo versus Estado?

Rogério Carvalho - Nossa tradição política é autoritária, centralizadora, distante da tradição democrática. O caminho que a gente encontra para poder refletir sobre o que aconteceu a partir de 1988 é como está o Estado Brasileiro? Como está o governo? São perguntas que precisamos responder.

PT Na Câmara - Mas o governo...

Rogério Carvalho - O governo é a materialização da vontade popular num determinado momento histórico. Este governo está conseguindo valer a vontade popular, ou está sufocado pelas instituições de Estado? Os órgãos acessórios e os complementares da democracia estão mais fortes que as instituições basilares, estruturais da democracia do ponto de vista político? São questões que precisamos aprofundar e identificar como solucionar e superar isso. Caso o entendimento seja de que sim, a gente tem que encontrar caminhos para fortalecer os governos sem que o Estado perca a sua função precípua, que é garantir a estabilidade do funcionamento do país.

PT Na Câmara - O senhor acha que as respostas que estão sendo dadas não estão de acordo com o funcionamento do Estado Brasileiro?

Rogério Carvalho - Na verdade, você tem um conjunto de respostas que enfraquecem a democracia e que cada vez mais quer retirar a representação social, a prerrogativa de governar. Aí o país não amadurece enquanto uma experiência democrática.

PT Na Câmara - Qual abordagem a comissão vai adotar sobre a questão federativa?

Rogério Carvalho - Vamos nos debruçar sobre de que maneira essa experiência federativa pode estar a serviço da consolidação dos direitos que dão face à nossa democracia. Essa estrutura federativa que a Constituição aponta: União, Estados e municípios como concorrentes na prestação de vários serviços que asseguram direitos constitucionais. Os modelos para produzir sincronia da ação entre esses entes têm sido suficientes? A nossa capacidade de operar as políticas, a prestação de serviços, da cooperação entre os entes federados, está garantindo a continuidade do serviço? São temas que queremos consolidar.

PT na Câmara - O quarto eixo do debate está centrado na democracia representativa e participativa. Quais são os pontos cruciais desse debate?

Rogério Carvalho - A nossa democracia é conformada pela representação. Para que essa representação se materialize você precisa ter partidos e eleições. Assim, precisamos discutir qual a cara da democracia representativa, que são os partidos como instrumento público de representação da sociedade. A segunda questão é como o modelo e o regramento para escolha do representante está definida na lei e se há furo nisso.

PT Na Câmara – Como o senhor avalia? Há furos?

Rogério Carvalho - Podemos adiantar que sim. Não temos regulamento completo sobre regras eleitorais. Elas são feitas a cada eleição e isso gera instabilidade e judicialização. Ou seja, muitas vezes a decisão eleitoral não é pelo voto, mas pela justiça. Essa é uma questão fundamental.

PT Na Câmara – E o debate sobre participação popular?

Rogerio Carvalho - Temos esse modelo que vivemos hoje da democracia representativa, mas podemos criar mecanismos com o uso intensivo de tecnologia para que a sociedade participe da vida pública dando opinião, questionando, contribuindo com os governos e os tirando da marginalidade. Transformando-os em seus representantes legítimos.

PT Na Câmara – Qual seriam esses mecanismos?

Rogério Carvalho – Seria lançar mão da tecnologia disponível de comunicação para que possamos assegurar à sociedade uma participação em todos os momentos do ato de governar. Definindo diretrizes dos processos e no acesso aos serviços produzidos e distribuídos pelo Estado Brasileiro.

PT Na Câmara – Como serão feitos esses debates?

Rogério Carvalho - A comissão aprovou um roteiro de trabalho que contempla quatro seminários, entre abril e junho. Além disso, teremos uma semana de comemoração dos 25 anos da Constituição Federal de 1988, entre os dias 7 e 11 de outubro.

PT Na Câmara - Quais atores vão contribuir com a discussão?

Rogério Carvalho - Os debates terão a participação de representantes da sociedade civil organizada, do governo federal, de estados e municípios, e do Poder Judiciário. Pretendemos fazer um debate acadêmico, de reflexão conceitual. Pretendemos também, ao final de toda a discussão e com toda a contribuição, transformar o conteúdo em propostas objetivas que também serão debatidas com setores da sociedade, inclusive com outros poderes.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Relator enfatiza importância de royalties para educação


zaratine14032013D2O deputado Carlos Zarattini (PT-SP), relator da Medida Provisória (MP 592/12), que destina  100% dos royalties do petróleo para o setor da educação, avaliou positivamente nesta quinta-feira (14), a audiência pública realizada pela comissão especial que analisa o tema.

Ao mesmo tempo, o parlamentar adiantou, em entrevista coletiva, que não existe nenhuma possibilidade de acolher, no âmbito da comissão, a partir da derrubada do veto presidencial, o debate sobre a distribuição dos  royalties do petróleo.

Zarattini adiantou também não haver chance, dentro desse contexto, de inclusão em seu relatório, da questão da antecipação de recursos aos estados não produtores, ou mesmo um  ressarcimento aos estados produtores.

“Essa perspectiva não existe. Pelo que apuramos, não existe nenhuma disposição do Executivo e não existe possibilidade financeira de ressarcimento, até porque os chamados recebíveis não estão definidos. Não existe uma consolidação desses recebíveis para que uma proposta como essa seja executada”, explicou Zarattini.

No entanto, o parlamentar antecipou que existe disposição dos parlamentares vencedores na derrubada do veto em conversar. “Vamos aguardar a promulgação da lei, a decisão do STF sobre o pedido de liminar, uma vez que o processo caminha para a judicialização. Então, teremos a possibilidade de discutir uma evolução, um acordo”, disse o parlamentar.

Flexibilização – Questionado sobre a existência de pressão por parte dos municípios para que haja redução nos percentuais de 100% a serem investidos na educação, o deputado - que também relatou o projeto de lei que originou as novas regras para a partilha dos royalties do petróleo com inclusão de 100% desses recursos para o setor educacional - foi taxativo. “O nosso objetivo é fazer com que esses recursos sejam dirigidos para a educação. Isso é fundamental, porque apostar na educação é apostar  no futuro do Brasil, no desenvolvimento social do nosso País”.  O parlamentar disse que para tomar uma decisão, entretanto, vai ouvir e debater muito para encontrar “uma proposta que seja de acordo, mas sempre olhando o que é fundamental, concentrar os recursos na educação”, finalizou Zarattini.

Participaram do debate representantes do Ministério de Minas e Energia, da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP).

Agenda – A próxima reunião do colegiado está marcada para o próximo dia 19 de março, onde será ouvido a Associação Nacional dos Municípios, entre outros.

Benildes Rodrigues site PT na Câmara

terça-feira, 12 de março de 2013

Graça Foster rebate oposição: “Não há crise na Petrobras”


gracafoster-D1A presidente da Petrobras, Graça Foster, disse nesta terça-feira (12) ao site da Liderança do PT na Câmara que não existe crise na companhia. “A Petrobras não passa por qualquer dificuldade financeira. Nossos investimentos em 2012 chegaram a 84,1 bilhões de reais, a maior realização na história da Petrobras”, disse. A declaração foi dada a propósito de campanha contra a empresa organizada por partidos de oposição e  capitaneada pelo PSDB.

“Temos, como sempre tivemos, em 60 anos de história, grandes desafios a superar, que são também enormes oportunidades de crescimento para a companhia”, disse Graça Foster.

Ela também rebateu as críticas ao atual estágio na exploração do pré-sal, lembrando que as metas estão sendo cumpridas e os resultados são “os melhores possíveis”.   Foster relatou que no mês de fevereiro a estatal atingiu a marca de 300 mil barris/dia de petróleo produzidos no pré-sal. Isso, segundo ela, ocorreu em apenas sete anos após a descoberta da camada do pré-sal.

Para dimensionar a importância do feito, a dirigente observou que a mesma marca só foi obtida, no Golfo do México, após 17 anos de exploração.   “Nós conseguimos isso no pré-sal com apenas 17 poços produtores, o que mostra a elevada produtividade desses campos já descobertos”, disse.

O  líder do PT na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), analisou que em dez anos de transformações protagonizadas pelo  governo  liderado pelo PT, a Petrobras - maior empresa estatal do País - foi recuperada do desmonte a que tinha sido submetida pelo governo FHC (1995-2002).

Guimarães lembrou que a estatal passou a receber investimentos, garantindo-lhe meios para modernizar-se e chegar à descoberta e à exploração do pré-sal,  uma das maiores  reservas de petróleo do mundo. O pré-sal , disse o líder, eleva o Brasil a posição estratégica, diante da demanda de energia mundial.

Para Guimarães, a “crise” na Petrobras é invenção da oposição que, quando no governo, privatizou 30% da empresa na bolsa de Nova York, por valores irrisórios diante da magnitude da estatal. O líder lembrou que a Petrobras não foi totalmente privatizada no governo do PSDB dada à reação de diferentes forças da sociedade brasileira, entre elas o PT. Os tucanos também tentaram mudar o nome da empresa pra Petrobrax e a fatiaram em diferentes unidades de negócios para pavimentar o caminho da privatização, prática que integra a cartilha neoliberal do PSDB.

Os números não deixam margem a dúvidas: com o governo do PT e aliados, a Petrobras recuperou-se e transformou-se em uma das maiores petrolíferas do mundo.

Lucro - Em 2002, último ano do governo tucano de Fernando Henrique Cardoso,  a empresa valia  US$15,5 bilhões; no ano passado, o seu valor de mercado era de  US$ 126 bilhões. O lucro líquido em 2002 foi de R$ 8,1 bilhões; no ano passado foi de R$ 21,2 bilhões.

Em 2002, a empresa investiu R$ 18,9 bilhões e, no ano passado, a cifra foi de R$ 84,1 bilhões. O número de empregados quase dobrou nos últimos dez anos, passou de  46,6  mil empregados em 2002 para 84,7 mil no ano passado.

Outro dado que mostra o êxito da gestão da Petrobras durante o governo do PT: a produção de petróleo saltou de  1,5 milhão de barris/dia em 2002 para 1 milhão e 980 mil barris/dia. No mesmo período, a receita da estatal saltou de R$ 69,2 bilhões para R$ 281,3 bilhões.


Benildes Rodrigues com  PT na Câmara

quinta-feira, 7 de março de 2013

LULA fala da sua relação com Hugo Chávez



NOTA À IMPRENSA
Vídeo - Lula fala sobre Hugo Chávez

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva gravou hoje um vídeo em que fala sobre a sua convivência com o presidente Hugo Chávez. Ele classificou a morte de Chávez como uma perda irreparável e destacou que ele sempre pensava no povo mais pobre da Venezuela. "Chávez sabia, e sabia com muita força, que a razão para ele estar no governo era fazer com que o povo pobre da Venezuela se sentisse orgulhoso, que passasse a ter direitos". Lula disse que espera que nesse momento o povo da Venezuela compreenda que é preciso muita paz, maturidade, tranquilidade e unidade "porque a Venezuela não pode retroceder".
Fonte: Instituto Lula

Chávez: O legado e desafios por Boaventura de Sousa Santos




Fonte: Blog Leonardo Boff


BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS é um grande amigo do Brasil, sociólogo  entre Coimbra e Austin (USA), um dos fundadores do Forum Social Mundial. É um dos mais destacados pensadores do processo de globalização pensado a partir do Grande Sul onde estão as principais vítimas desse processo mais que tudo de expoliação capitalista econômico-financeira. Há muitas controvérsias sobre o falecido Presidente da Venezuela Hugo Chaves, carismático e popular. Era um dos poucos no mundo que dizia a verdade sobre como funciona o Capitalismo e como não está em nada interessado em tomar medidas contra o aquecimento global. Era um opositor declarado do imperialismo norte-americano e ocidental, coisa que quase ninguém do nosso lado assume. Prefere enquadar-se mesmo a contra-gosto. Estive muitas vezes na Venezuela, antes de Chavez e pude ver favelas, como a de Belen, uma das piores que encontrei no mundo. A oligarquia dominava e era altamente corrupta e anti-social. Publicamos este artigo de Boaventura de Sousa Santos que esteve muitas vezes na Venezuela e que nos dá um quadro objetivo do que foi o carisma de Chavez e os desafios que se apresentam para o futuro. LBoff
********************
Morreu o líder político democrático mais carismático das últimas décadas. Quando acontece em democracia, o carisma cria uma relação política entre governantes e governados particularmente mobilizadora, porque junta à legitimidade democrática uma identidade de pertença e uma partilha de objetivos que está muito para além da representação política. As classes populares, habituadas a serem golpeadas por um poder distante e opressor (as democracias de baixa intensidade alimentam esse poder) vivem momentos em que a distância entre representantes e representados quase se desvanece. Os opositores falarão de populismo e de autoritarismo, mas raramente convencem os eleitores. É que, em democracia, o carisma permite níveis de educação cívica democrática dificilmente atingíveis noutras condições. A difícil química entre carisma e democracia aprofunda ambos, sobretudo quando se traduz em medidas de redistribuição social da riqueza. O problema do carisma é que termina com o líder. Para continuar sem ele, a democracia precisa de ser reforçada por dois ingredientes cuja química é igualmente difícil, sobretudo num imediato período pós-carismático: a institucionalidade e a participação popular.

Ao gritar nas ruas de Caracas “Todos somos Chávez!” o povo está lucidamente consciente de que Chávez houve um só e que a revolução bolivariana vai ter inimigos internos e externos suficientemente fortes para pôr em causa a intensa vivência democrática que ele lhes proporcionou durante catorze anos. O Presidente Lula do Brasil também foi um líder carismático. Depois dele, a Presidenta Dilma aproveitou a forte institucionalidade do Estado e da democracia brasileiras, mas tem tido dificuldade em complementá-la com a participação popular. Na Venezuela, a força das instituições é muito menor, ao passo que o impulso da participação é muito maior. É neste contexto que devemos analisar o legado de Chávez e os desafios no horizonte.

O legado de Chávez

Redistribuição da riqueza. Chávez, tal como outros líderes latino-americanos, aproveitou o boom dos recursos naturais (sobretudo petróleo) para realizar um programa sem precedentes de políticas sociais, sobretudo nas áreas da educação, saúde, habitação e infraestruturas que melhoraram substancialmente a vida da esmagadora maioria da população. Alguns exemplos: educação obrigatória gratuita; alfabetização de mais de um milhão e meio de pessoas, o que levou a UNESCO a declarar a Venezuela como “território libre de analfabetismo”; redução da pobreza extrema de 40% em 1996 para 7.3% hoje; redução da mortalidade infantil de 25 por 1000 para 13 por mil no mesmo período; restaurantes populares para os sectores de baixos recursos; aumento do salário mínimo, hoje o salário mínimo regional mais alto, segundo la OIT. A Venezuela saudita deu lugar à Venezuela bolivariana.

A integração regional. Chávez foi o artífice incansável da integração do subcontinente latino-americano. Não se tratou de um cálculo mesquinho de sobrevivência e de hegemonia. Chávez acreditava como ninguém na ideia da Pátria Grande de Simón Bolívar. As diferenças políticas substantivas entre os vários países eram vistas por ele como discussões no seio de uma grande família. Logo que teve oportunidade, procurou reatar os laços com o membro da família mais renitente e mais pró-EUA, a Colômbia. Procurou que as trocas entre os países latino-americanos fossem muito para além das trocas comerciais e que estas se pautassem por uma lógica de solidariedade, complementaridade económica e social e reciprocidade, e não por uma lógica capitalista. A sua solidariedade com Cuba é bem conhecida, mas foi igualmente decisiva com a Argentina, durante a crise da dívida soberana em 2001-2002, e com os pequenos países das Caraíbas.

Foi um entusiasta de todas as formas de integração regional que ajudassem o continente a deixar de ser o backyard dos EUA. Foi o impulsionador da ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), depois ALBA-TCP (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América- Tratado de Comércio dos Povos) como alternativa à ALCA (Área de livre Comércio das Américas) promovida pelos EUA, mas também quis ser membro do Mercosul. CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos), UNASUL (União de Nações Sul-Americanas) são outras das instituições de integração dos povos da América Latina e Caribe a que Chávez deu o seu impulso.

Anti-imperialismo. Nos períodos mais decisivos da sua governação (incluindo a sua resistência ao golpe de Estado de que foi vítima em 2002) Chávez confrontou-se com o mais agressivo unilateralismo dos EUA (George W. Bush) que teve o seu ponto mais destrutivo na invasão do Iraque. Chávez tinha a convicção de que o que se passava no Médio-Oriente viria um dia a passar-se na América Latina se esta não se preparasse para essa eventualidade. Dai o seu interesse na integração regional. Mas também estava convencido de que a única maneira de travar os EUA seria alimentar o multilateralismo, fortalecendo o que restava da Guerra Fria. Daí, a sua aproximação à Rússia, China e Irão. Sabia que os EUA (com o apoio da União Europeia) continuariam a “libertar” todos os países que pudessem contestar Israel ou ser uma ameaça para o acesso ao petróleo. Daí, a “libertação” da Líbia, seguida da Síria e, em futuro próximo, do Irão. Daí também o “desinteresse” dos EUA e EU em “libertarem” o país governado pela mais retrógrada ditadura, a Arábia Saudita.

O socialismo do século XXI. Chávez não conseguiu construir o socialismo do século XXI a que chamou o socialismo bolivariano. Qual seria o seu modelo de socialismo, sobretudo tendo em vista que sempre mostrou uma reverência para com a experiência cubana que muitos consideraram excessiva? Conforta-me saber que em várias ocasiões Chávez tenha referido com aprovação a minha definição de socialismo: “socialismo é a democracia sem fim”. É certo que eram discursos, e as práticas seriam certamente bem mais difíceis e complexas. Quis que o socialismo bolivariano fosse pacífico mas armado para não lhe acontecer o mesmo que aconteceu a Salvador Allende. Travou o projeto neoliberal e acabou com a ingerência do FMI na economia do país; nacionalizou empresas, o que causou a ira dos investidores estrangeiros que se vingaram com uma campanha impressionante de demonização de Chávez, tanto na Europa (sobretudo em Espanha) como nos EUA. Desarticulou o capitalismo que existia, mas não o substituiu. Daí, as crises de abastecimento e de investimento, a inflação e a crescente dependência dos rendimentos do petróleo. Polarizou a luta de classes e pôs em guarda as velhas e as novas classes capitalistas, as quais durante muito tempo tiveram quase o monopólio da comunicação social e sempre mantiveram o controlo do capital financeiro. A polarização caiu na rua e muitos consideraram que o grande aumento da criminalidade era produto dela (dirão o mesmo do aumento da criminalidade em São Paulo ou Joanesburgo?).

O Estado comunal. Chávez sabia que a máquina do Estado construída pelas oligarquias que sempre dominaram o país tudo faria para bloquear o novo processo revolucionário que, ao contrário dos anteriores, nascia com a democracia e alimentava-se dela. Procurou, por isso, criar estruturas paralelas caracterizadas pela participação popular na gestão pública. Primeiro foram as misiones e gran misiones, um extenso programa de políticas governamentais em diferentes sectores, cada uma delas com um nome sugestivo (Por. ex., a Misíon Barrio Adentro para oferecer serviços de saúde às classes populares), com participação popular e a ajuda de Cuba. Depois, foi a institucionalização do poder popular, um ordenamento do território paralelo ao existente (Estados e municípios), tendo como célula básica a comuna, como princípio, a propriedade social e como objetivo, a construção do socialismo. Ao contrário de outras experiências latino-americanas que têm procurado articular a democracia representativa com a democracia participativa (o caso do orçamento participativo e dos conselhos populares setoriais), o Estado comunal assume uma relação confrontacional entre as duas formas de democracia. Esta será talvez a sua grande debilidade.

Os desafios para a Venezuela e o continente

A partir de agora começa a era pós-Chávez. Haverá instabilidade política e económica? A revolução bolivariana seguirá em frente? Será possível o chavismo sem Chávez? Resistirá ao possível fortalecimento da oposição? Os desafios são enormes. Eis alguns deles.

A união cívico-militar. Chávez assentou o seu poder em duas bases: a adesão democrática das classes populares e a união política entre o poder civil e as forças armadas. Esta união foi sempre problemática no continente e, quando existiu, foi quase sempre de orientação conservadora e mesmo ditatorial. Chávez, ele próprio um militar, conseguiu uma união de sentido progressista que deu estabilidade ao regime. Mas para isso teve de dar poder económico aos militares o que, para além de poder ser uma fonte de corrupção, poderá amanhã virar-se contra a revolução bolivariana ou, o que dá no mesmo, subverter o seu espírito transformador e democrático.

O extractivismo. A revolução bolivariana aprofundou a dependência do petróleo e dos recursos naturais em geral, um fenómeno que longe de ser específico da Venezuela, está hoje bem presente em outros países governados por governos que consideramos progressistas, sejam eles o Brasil, a Argentina, o Equador ou a Bolívia. A excessiva dependência dos recursos está a bloquear a diversificação da economia, está a destruir o meio ambiente e, sobretudo, está a constituir uma agressão constante às populações indígenas e camponesas onde se encontram os recursos, poluindo as suas águas, desrespeitando os seus direitos ancestrais, violando o direito internacional que obriga à consulta das populações, expulsando-as das suas terras, assassinando os seus líderes comunitários. Ainda na semana passada assassinaram um grande líder indígena da Sierra de Perijá (Venezuela), Sabino Romero, uma luta com que sou solidário há muitos anos. Saberão os sucessores de Chávez enfrentar este problema?

O regime político. Mesmo quando sufragado democraticamente, um regime político à medida de um líder carismático tende a ser problemático para os seus sucessores. Os desafios são enormes no caso da Venezuela. Por um lado, a debilidade geral das instituições, por outro, a criação de uma institucionalidade paralela, o Estado comunal, dominada pelo partido criado por Chávez, o PSUV (Partido Socialista Unificado da Venezuela). Se a vertigem do partido único se instaurar, será o fim da revolução bolivariana. O PSUV é um agregado de várias tendências e a convivência entre elas tem sido difícil. 

Desaparecida a figura agregadora de Chávez, é preciso encontrar modos de expressar a diversidade interna. Só um exercício de profunda democracia interna permitirá ao PSUV ser uma das expressões nacionais do aprofundamento democrático que bloqueará o assalto das forças políticas interessadas em destruir, ponto por ponto, tudo o que foi conquistado pelas classes populares nestes anos. Se a corrupção não for controlada e se as diferenças forem reprimidas por declarações de que todos são chavistas e de que cada um é mais chavista do que o outro, estará aberto o caminho para os inimigos da revolução. Uma coisa é certa:  se há que seguir o exemplo de Chávez, então é crucial que não se reprima a crítica. É necessário abandonar de vez o autoritarismo que tem caracterizado largos sectores da esquerda latino-americana.

O grande desafio das forças progressistas no continente é saber distinguir entre o estilo polemizante de Chávez, certamente controverso, e o sentido político substantivo da sua governação, inequivocamente a favor das classes populares e de uma integração solidária do subcontinente. As forças conservadoras tudo farão para os confundir. Chávez contribuiu decisivamente para consolidar a democracia no imaginário social. Consolidou-a onde ela é mais difícil de ser traída, no coração das classes populares. E onde também a traição é mais perigosa. Alguém imagina as classes populares de tantos outros países do mundo verter pela morte de um líder político democrático as lágrimas amargas com que os venezuelanos inundam as televisões do mundo? Este é um património precioso tanto para os venezuelanos como para os latino-americanos. Seria um crime desperdiçá-lo.
  Coimbra, 6 de Março de 2013